PLANTANDO ÁGUA

14/11/2018

Empresas encontram soluções para a atual insegurança hídrica na conservação e no restauro da paisagem natural

Por Magali Cabral

Todas as empresas usam água em seus processos e cadeias produtivas. Algumas mais, outras menos. Só mesmo gestores muito desatentos não enxergariam o risco de escassez hídrica que já se instalou nitidamente em algumas regiões do País. A conservação e recuperação de florestas têm se apresentado como uma solução tão interessante para a redução do risco hídrico empresarial que duas das empresas selecionadas na chamada de casos Gestão Empresarial de Capital Natural apresentaram ações nesse sentido.

São elas a Sabesp – empresa de capital misto que abastece 368 municípios paulistas na distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto – com o caso “Programa Cinturão Verde dos Mananciais Metropolitanos”; e a Nespresso, unidade de negócios em café dentro da multinacional suíça Nestlé, com o programa “Consórcio Cerrado das Águas”.

Durante a maior crise hídrica de São Paulo, que se estendeu de dezembro de 2014 a início de 2016, a Sabesp recebeu críticas de vários lados, não apenas pela forma como vinha gerindo a empresa, mas também por uma suposta falta de posicionamento sobre as questões ambientais relacionadas ao desabastecimento. A resposta às críticas veio em 2017 no livro digital Muito Além da Água. O propósito da publicação foi comunicar ao público a existência do programa Cinturão Verde dos Mananciais, que abrange as regiões dos sistemas de abastecimento Cantareira, Alto Cotia, Rio Claro e Fazenda Capivari, na Região Metropolitana de São Paulo.

Na apresentação, o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, admite que a grave crise hídrica que se abateu sobre São Paulo na ocasião deixou evidente a importância da gestão eficiente e sustentável dos recursos naturais na prevenção de futuras adversidades climáticas. “Recuperar e preservar os recursos naturais nas regiões do cinturão verde, mais do que uma obrigação, é uma diretriz estratégica para garantir a entrega de água aos mais de 28 milhões de consumidores”, registrou.

De certo modo, a Nespresso segue uma estratégia semelhante com o programa Consórcio Cerrado das Águas. Conforme explica o especialista em café verde da empresa, Guilherme Amado, a missão do programa é garantir o futuro dos cafés. “No Cerrado mineiro [região do Triângulo Mineiro], se analisarmos os índices de chuva nos últimos 10 anos, veremos que em sete deles as precipitações ficaram abaixo da média histórica. Isso é muito impactante em uma região de temperaturas altas com uma produção de café tão dependente da água [cerca de 60% da cafeicultura do Cerrado utiliza irrigação].”

Em 2015, a mesma seca que fez “evaporar” a água dos sistemas de abastecimento da Sabesp, também atingiu em cheio os produtores dos mais premiados cafés brasileiros. Na época, os produtores de café foram obrigados a cessar a captação de água sob pena de terem seus equipamentos de irrigação embargados pelo estado. “Essa interrupção do ciclo da planta [com a suspensão da irrigação] acarreta menos produtividade e menos qualidade”, observa Amado.

Pó pô o pó?

O café é uma planta exigente. Para produzir um grão com qualidade premium é necessário um volume de água constante, muito bem distribuído, que varie de 1.200 a 1.500 milímetros ao ano. Embora tenha um clima ótimo para o café, o Cerrado é um bioma delicado e já maltratado nas regiões de alta produção agrícola. A situação não é diferente em Patrocínio, no Triângulo Mineiro, onde a Nespresso tem seus grandes fornecedores. “Chuvas fortes e rápidas são cada vez mais frequentes e, quando caem sobre um solo compactado, provocam lixiviação de fertilizantes e agroquímicos, impactam na produção, na produtividade e na qualidade do produto final”, explica o especialista em café verde da Nespresso, Guilherme Amado.

Segundo seu relato, em muitas das áreas agrícolas de Patrocínio, não se vê mais nenhuma árvore. A ocupação agrícola massiva no Triângulo Mineiro teve início nos anos 1970, depois que sucessivas geadas dizimaram a cafeicultura do Paraná. Muitos agricultores migraram para a região, onde o clima era bom e as terras não tão caras, mas nem todos foram cuidadosos com o ecossistema ao formar suas lavouras. “Isso impactou o clima e hoje todos estão pagando um alto preço”, diz o especialista.

Somem-se a essa situação os dados de dois estudos climáticos referentes à agricultura: o primeiro feito pela Embrapa em 2004, e o outro, pela Universidade de Vermont (Nova Inglaterra, EUA), em 2018. Modelagens de cenários para as grandes regiões agrícolas do mundo apontam que, se a temperatura média do planeta subir 4 graus nos próximos 100 anos, pelo menos 90% das lavouras atuais não serão mais viáveis. “Isso nos preocupa demais, pois o Cerrado mineiro está incluído nesses estudos e é desta região que compramos enorme quantidade de café. Os riscos são crescentes e, portanto, faz todo o sentido colocar em prática projetos para endereçar esse tipo de desafio”, afirma ele.

Em 2015, depois de Patrocínio e região terem amargado um veranico prolongado, com mais de 30 dias sem chuvas e temperaturas acima de 35 graus, o que atingiu severamente a quantidade e a qualidade dos cafés, a Nespresso apoiou, ainda sob o impacto da quebra da safra, a formalização do Consórcio Cerrado das Águas. Trata-se de uma plataforma multissetorial colaborativa, cujo objetivo é criar “paisagens produtivas sustentáveis” em uma área-piloto, abrangendo a bacia do Córrego Feio, em Patrocínio. O modelo prevê que todos os agricultores, a montante ou a jusante, implementem boas práticas de produção e de conservação, a fim de garantir um uso sustentável do capital natural local.

Plantio do Consórcio Cerrado das Águas/ Divulgação
Plantio do Consórcio Cerrado das Águas/ Divulgação

O projeto vem com três eixos de atuação: o de paisagens sustentáveis, o de cadeias produtivas e o de capacitação. No eixo de atuação de paisagens sustentáveis, a estratégia é restaurar ambientes naturais para garantir a provisão dos serviços ecossistêmicos. No eixo referente a cadeias produtivas, o Consórcio visa aumentar os níveis de competitividade por meio do fortalecimento da identidade regional e da adoção de processos de produção sustentável. O terceiro eixo trabalha a capacitação por meio do compartilhamento de informações e de conhecimento, além de treinamentos em práticas produtivas sustentáveis.

Esse conceito de “abordagem por paisagem” foi resultado de uma cocriação que incluiu a sociedade civil, representantes dos produtores, empresas, certificadoras de café, órgãos governamentais (Departamento de Águas e Energia Elétrica – DAEE e o Instituto Estadual de Florestas – IEF), além da universidade local, o Centro Universitário do Cerrado (Unicerp).

O método para monitorar riscos e oportunidades de serviços ecossistêmicos relacionados a fazendas de café veio da parceria da Nespresso com a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e, posteriormente, com o Instituto Ipê, encarregado de avaliar indicadores técnicos e ambientais. “Em reuniões com todas as partes interessadas, construímos a visão comum de que a água é fruto da paisagem que construímos”, afirma Amado.

O grande foco das ações está na conservação e no uso racional da água, o que envolve ações de curto prazo (qualidade dos sistemas de irrigação, captação de águas de chuva e manejo de cultivos de cobertura) e de longo prazo (reflorestamento, isolamento, enriquecimento e regeneração natural para os fragmentos de vegetação nativa). O financiamento do projeto, que envolve 125 propriedades, está sendo feito com verbas da Nespresso e do Critical Ecosystem Partnership Fund, cuja captação foi feita pelo Imaflora. O fundo liberou US$ 200 mil para fazer a implementação de parte do plano de ação e todo o diagnóstico.

Enquanto isso, o Consórcio Cerrado das Águas planeja também colocar em prática um mecanismo financeiro de pagamento por serviços ambientais (PSA). No momento a Nespresso está contratando a consultoria para fazer a valoração do serviço. “Quando tivermos esse valor, buscaremos as fontes financiadoras. Mas a ideia é não criar nenhuma expectativa, pois sempre deixamos bem claro aos produtores que eles têm de andar por si só.”

Água de beber

Sem computar o espelho d’água das represas, a Sabesp possui cerca de 35 mil hectares em Unidades de Conservação (UC), protegendo os mananciais de seus quatro grandes sistemas de abastecimento. Juntas, as áreas representam 1,4% do remanescente da Mata Atlântica do estado de São Paulo. Essas propriedades foram adquiridas ao longo das décadas de 1970 e 1980 para a construção dos reservatórios e, segundo a gerente de Recursos Hídricos, Mara Ramos, estão 75% cobertas com vegetação nativa de Mata Atlântica. Os 25% de áreas ainda descobertas estão dentro do sistema de proteção dos mananciais do Sistema Cantareira, onde no passado havia uma fazenda de gado.

Ela explica que o programa Cinturão Verde dos Mananciais está baseado em três vertentes: proteger as áreas do entorno das reservas dos quatro mananciais, aumentar a cobertura vegetal do Cantareira e fazer a manutenção de viveiros de mudas para subsidiar esse reflorestamento. “Na primeira ação, estamos falando em conservar 35 mil hectares de florestas. É preciso monitorar e fiscalizar para evitar eventuais ocupações. Na segunda ação, nossa meta é ampliar de 75% para 78% a cobertura vegetal na unidade do Sistema Cantareira até 2020”, afirma.

Entre as mais de uma centena de espécies de árvores produzidas nos viveiros da Sabesp, exemplares de angico-branco, ingá-do-brejo, tamboril, peroba-rosa e cedro-rosa deverão estar entre as 350 mil mudas a serem plantadas nos próximos dois anos.

Em 30 anos, a cobertura vegetal no Sistema Cantareira passou de 61% para 75% – foram reflorestados mais de 200 hectares. Os 25% de áreas descobertas remanescentes representam hoje cerca de 1,5 mil hectares. Entre 2007 e 2010, foram plantadas 1,4 milhão de árvores em parceria com as organizações The Nature Conservancy (TNC), o Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê), e com a empresa pública paulista Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa). Este ano, os viveiros passaram a ser administrados pela Associação Mata Ciliar, que promete trazer mais agilidade aos projetos de restauração e expandir seu raio de atuação por meio de parcerias com prefeituras e outras instituições locais.

Essa iniciativa não é uma ação meramente ambientalista. A água é o core business da empresa e, ao cuidá-la, a Sabesp gera valor para si própria, aumentando a segurança hídrica e a qualidade da água a ser tratada. Os cinturões verdes dificultam o surgimento de ocupações irregulares, impedem que lixo, pesticidas e agrotóxicos sejam arrastados para dentro das represas, reduzem o risco de enchentes, protegem a biodiversidade e melhoram a qualidade da água.

Segundo dados da própria Sabesp, o Índice de Qualidade das Águas (IQA) da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) para as águas do Sistema Cantareira apresentava valor 70 (em uma escala de 0 a 100) no ano 2000, indicando “boa qualidade”. Durante o período de 2010 a 2017, com o aumento da cobertura vegetal no entorno da represa, o índice subiu 10 pontos, passando a apresentar “ótima qualidade”, de acordo com Mara Ramos.

No Brasil, tem sido comum a sustentabilidade ganhar força somente quando os riscos aos negócios já se tornaram presentes. Embora a expectativa dos efeitos da mudança do clima esteja nos estudos científicos e nos noticiários há mais de uma década, para muita gente ainda é preciso ver para crer. O ano de 2015 acendeu a luz amarela (ou vermelha, para alguns) dos efeitos das adversidades climáticas, e levou as empresas, principalmente aquelas muito dependente de recursos hídricos, a pensar mais seriamente em suas relações com os ecossistemas. Foi o ano em que a natureza “falou” aos que sabem ouvir: “Precisa de mim? Então me ajuda a te ajudar”.